terça-feira, 19 de abril de 2011

Folha de S.Paulo - Da boca para dentro - 19/04/2011

Folha de S.Paulo - Da boca para dentro - 19/04/2011

Da boca para dentro


Cantar melhora a capacidade pulmonar, fortalece os músculos da barriga e do rosto, aumenta a resistência física e, ainda, relaxa; solte a sua voz


Daniel Marenco/Folhapress
Jane Tapxure, 62, canta em karaokê na Liberdade, em São Paulo

MANUELA MINNS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Cantar é divertido, quem não sabe. E é bem mais que isso: mexe com várias partes do corpo, faz bem à saúde.
Para começar, quem canta melhora a capacidade pulmonar e o sistema imunológico, fortalece a barriga e alivia o estresse.
O professor Graham Welch, especialista em Educação Musical da Universidade de Londres e pesquisador, diz que o canto ativa o corpo e a mente.
Cantar é uma atividade física, psicológica, social e musical. Diferentes sistemas modulares no cérebro são usados para lidar com as características musicais do canto, como o tom, o ritmo e as letras, e integrá-las.
"Há um entrelaçamento dos sistemas nervoso, endócrino e imunológico", diz ele.
O sistema nervoso é responsável pelo ato de cantar. Há também um envolvimento emocional com o som humano, desenvolvido na fase fetal, e um diálogo da pessoa com seu corpo, seu sistema respiratório e os espaços que oferecerá para essa voz soar.
"Cantar não é só da boca para fora. Todo instrumento tem espaço interno e externo de ressonância, inclusive o corpo. A voz preenche o corpo, a melodia e a letra que escolhemos", diz a fonoaudióloga Mônica Montenegro, professora da USP.
A neurologista Paula Viana Wackermann, que desenvolveu pesquisa pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto com cantores líricos, diz que a atividade induz a um estado de prazer.
O nível de cortisol (hormônio do estresse) fica reduzido, não importando se a pessoa é afinada ou não.
"A sensação de bem-estar é aumentada pelo efeito sociopsicológico de fazer música como parte de um grupo", completa Welch.
Mesmo quem canta sozinho, acompanhando um CD ou iPod, sente esses benefícios. O sentido de se envolver em uma atividade compartilhada permanece.
"Cansei de chegar triste ao karaokê e sair de lá muito bem", diz Jane Tapxure, 62 anos, dona de um pet shop.
Com o fim do casamento de 30 anos, ela passou dois anos deprimida, chorando no sofá. Até que uma amiga a chamou para cantar.
Jane, que é fã de música italiana e Frank Sinatra, conta que voltou a sair de casa e a se arrumar. No karaokê, ela formou um grupo de amigos de idades variadas, que se encontra toda semana, comemora aniversários e faz festas temáticas, como Halloween e até do pijama.
"É uma farra. Lá você não é julgado por ninguém."

IMUNIDADE
A cantoria ativa os sistemas cardiovascular e respiratório. O aumento da ventilação e da capacidade pulmonar melhora o condicionamento físico e mental.
Os músculos abdominais ficam fortalecidos e os faciais, tonificados. Estudos sugerem que cantores têm sistema de defesa melhor.
"Acredita-se que estados mentais positivos e de relaxamento induzidos pelo canto sejam responsáveis por um aumento na secreção da imunoglobulina A, responsável pela defesa contra infecções bacterianas ou virais das vias aéreas superiores", explica a neurologista Paula Viana Wackermann.
Mesmo quem não quer ou não está em condições de soltar o gogó pode se beneficiar da cantoria alheia.
"Estudos apontam que escutar músicas prazerosas está relacionado à liberação de serotonina, que é o neuropeptídio da alegria, do prazer", afirma a neurologista Paula Wackermann.
O ato de fazer o bem ao próximo por meio do canto é praticado pelos hindus há séculos. As sessões de "kirtan", que são vocalizações de mantras em grupo, com instrumentos, são vistas como um ato de doação.

MEDITAÇÃO
A professora de canto indiano Ratnabali Adhikari, natural de Calcutá, Índia, explica que entoar mantras é um tipo de meditação.
Os mantras têm uma sequência sonora e uma representação significativa.
Quando cantados repetidamente, é como se mandássemos sinais positivos para os neurônios que, por sua vez, levam essa mensagem para o corpo todo.
"O mantra ajuda a focar a mente e deixá-la em equilíbrio com o corpo."
"Ao cantar em grupo, as pessoas fazem bem a si mesmas e, espalhando essa harmonia pelo universo, beneficiam todos os outros seres", diz Ratnabali, que vive há 30 anos no Brasil.
A professora afirma que é preciso inspirar profundamente e, na expiração, entoar o mantra.
A coluna deve estar ereta para a energia vital, chamada de prana, fluir.
Entender o que se está cantando e pronunciar direito as palavras para não trocar seus significados é legal, ajuda a potencializar os benefícios dos mantras, segundo a professora indiana.
Mas não é preciso falar sânscrito nem entender a letra para tirar proveito de uma boa cantoria.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

De como tipificar sonhos... - dtschezzi@gmail.com - Gmail

De como tipificar sonhos... - dtschezzi@gmail.com - Gmail

De como tipificar os sonhos
Ana Elisa Ribeiro
+ de 1400 Acessos


Eu tinha uns sonhos bem explícitos, conscientes e nítidos. Mas tinha também outros bem vagos, daqueles que mal se desenham, quase não se revelam. Só depois que se afasta a chance de eles virarem algo mais palpável é que eles se configuram, já de costas, dando tchauzinho, descendo a ladeira.

Uns sonhos devem ter vindo comigo desde o zigoto. Esta coisa de nome feio é o "resultado da reprodução sexuada", como diz aí a Wikipédia. Foi quando me conceberam e nem sabiam. Talvez eu nem fosse um sonho ainda. E lá, naquele encontro de "dois núcleos haploides" de células compatíveis, algum sonho já surgia. Sonho, por exemplo, de nascer. Não sei.

A consciência de que a gente sonha aparece relativamente cedo. Com 4 ou 5 anos já se relata aos pais o movimento intenso da madrugada. Heróis, maremotos ou beijos de mãe povoam a noite das crianças. Mas esse sonho não vale. Esse aí é aquele que o Freud descreveu. Aquele que deve ter lá suas razões, mas que acontece mesmo, digamos assim. Sonho noturno é sonho. É aquela movimentação que mostra que o cérebro não apaga. É aquele mosaico de cenas (às vezes improváveis) que a gente pode esquecer que viveu quando acorda. Às vezes dá para contar aos outros; às vezes, não.

O sonho do qual eu trato é outro. É aquele que se parece com um desejo no futuro. Uma espécie de assunto que pode nos pautar por diversos ciclos da vida. Aliás, às vezes os ciclos é que se pautam por eles. Sonho de crescer e se casar (com um príncipe, claro). Sonho de ter uma casa com varanda. Sonho de ter o carro do ano. Sonho de ser bombeiro, médico, delegado. Sonho de viajar o mundo inteiro, inclusive pelos países menos servidos de aviões. Sonho de morar na cidade maior ou na menor. Sonho de ser velho com calma. Sonho de estudar grego clássico. Esse sonho é aquele que se mistura com o futuro que a gente queria ter. Um sonho dentro do outro. Uma espécie de promessa ou de provável frustração. Um tipo de cordão que une dois pontos, não necessariamente duas retas (aliás, geralmente curvas e loops). Esse sonho é aquele que a gente desenha para a professora do ensino fundamental. O sonho de burguês que todo mundo tem, exceto quem acha que é o dono dos sonhos. E a gente sabe que vai galgando a vida até achar esses sonhos realizados, em algum lugar do sótão.

Tem sonho que a gente percebe que está se transformando em realidade. Assim ó: vou estudando, me formando, aprendendo, correndo atrás, cumpro os exames, me aprovo, passo uns apertos, mas, quando me assusto, estou dedicando meu diploma de dentista à minha mãe. Esse é desse tipo de sonho em forma de escalada. Tem gente que sonha desde cedo. Tem gente que mistura com um elemento meio genético. Tem gente que não percebe que não está sonhando o próprio sonho (e acorda tarde demais). Mas tem gente que descobre que não sonhou, mas acaba curtindo.

Já outro tipo de sonho é difícil de escalar. Não tem cursinho, não tem exame, não tem concorrência, não tem aula particular, preparório específico, intensivão, café com guaraná, livro para adotar, manual de instruções. A gente vai se movendo, achando que está na direção certa, mas sabe lá para que lado esse sonho vai. Ele parece que está na frente, mas não está. Parece uma sala de espelhos de um parque barato. É sonho imprevisível.

Desse tipo há muitos. Como saber? Vai-se sonhando até que ele um dia baixa, que nem umdownload. Ou a gente percebe que passou o tempo e ele não aconteceu. Tem desses sonhos que dependem de rituais para a gente perceber. E nem sempre a gente está disposto aos rituais. Tem sonho que é arisco.

Eu sonhei muitas coisas difíceis e muitas pautas para a minha vida. Além de sonhar, eu sempre esperei que as coisas fossem ficar boas, tranquilas, confortáveis. Nem sempre elas ficaram. Nem sempre elas se comoveram comigo.

Viver muito não é um dos meus sonhos. Eu me pareço mais com alguém sem paciência do que com uma velhinha que rega flores. Até meus cactos morreram, que dirá qualquer outra coisa menos forte. E nem sonhei com heranças, descendência ou casamentos pomposos. Mas eu sonhei com uma alegria mais ou menos constante, e ela não aconteceu. Sonhei com cuidados parecidos com os que eu tinha na casa da minha mãe, e não aconteceu. Sonhei com livros, muitos livros, e, aí sim, venho compondo meu mosaico de impertinências. Vou comprando estantes, dividindo as prateleiras e lendo o que eu puder.

Eu tinha o sonho de ter uma grande biblioteca, com escadas rolantes, mas com vista bonita, de onde se pudesse ver a cidade piscando à noite. Não deu. Minha pequena biblioteca é térrea e de dentro dela mal se vê o muro do vizinho. Os sonhos vão se reduzindo, até caberem nos moldes da mediocridade da gente.

Tem sonho que é que nem sorte: se você não pega na hora, nunca mais aparece. Alguém precisa ensinar a gente a enxergar esse tipo de sonho esvoaçante. Ninguém ensina. Ou a gente percebe ou a gente só avalia a posteriori. É, passou. Já era (minha frase mais frequente, embora não seja minha preferida).

E tem um elemento importante: pesadelo travestido de sonho, que engana bem, ilude, se camufla e parece que vai levar a família inteira para um céu azul. Mas não vai. É só uma convulsão de precipícios que vai rolar bem na sua frente. E é difícil sair deles. Rodamoinho de vento sujo. Uma espécie de falta de opção.

Sonhar é um desses momentos da inteligência que a gente precisa promover. E precisa aprender a capturar.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Folha de S.Paulo - Buraco negro "mãe" do Universo teria a massa de 3.000 sóis - 11/04/2011

Folha de S.Paulo - Buraco negro "mãe" do Universo teria a massa de 3.000 sóis - 11/04/2011

Buraco negro "mãe" do Universo teria a massa de 3.000 sóis

Conta feita por físico polonês é tentativa de refinar sua hipótese contrária ao Big Bang como o início de tudo

Perturbações dentro de estrelas colapsadas gerariam um zoológico cósmico, com grande número de universos

SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO

O útero cósmico no qual o nosso Universo teria sido gestado era um buraco negro da categoria peso-pesado, cuja massa seria equivalente a 3.000 vezes a do nosso Sol.
É isso o que propõe o físico polonês Nikodem Poplawski, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos.
Em artigo publicado no "ArXiv" (uma espécie de biblioteca eletrônica aberta, na qual os físicos costumam divulgar versões preliminares de suas pesquisas para apreciação da comunidade científica), ele apresentou o cálculo da massa necessária para que um buraco negro produza um Universo com as características do nosso.

NATIVIDADE
O polonês reacendeu a discussão sobre a possibilidade de o Cosmos ter "nascido" dentro um buraco negro ao longo do ano passado.
Ele publicou uma sequência de artigos sobre o tema no "ArXiv" e na revista "Physics Letters B", uma das mais importantes sobre física nuclear e de partículas.
Essas publicações confrontam a teoria do Big Bang, que define que o Universo teria surgido a partir da expansão de uma grande concentração de massa e energia, comparada a uma explosão.
A questão é que, quando se considera que o Big Bang é o início de tudo, é preciso postular que a expansão do Universo teria começado a partir de um ponto incrivelmente pequeno, de densidade e energia infinitas.
Para os físicos, esses infinitos são suspeitos, porque fica impossível investigar o que acontecia no momento inicial da expansão cósmica.
Uma das formas de resolver o problema é propor que o Big Bang não foi o começo de tudo o que existe, mas uma perturbação no interior de um buraco negro em outro universo, conforme defendido pelo cientista polonês.
Segundo Poplawski, todos os universos (já que haveria vários deles) estão dentro de buracos negros. E todos têm estrelas que, se altamente contraídas (quando seu combustível acaba), dariam origem a novos buracos negros -e a novos universos.
Os números da conta saíram de uma modificação da teoria da relatividade geral de Einstein (que Poplawski vem usando nos seus estudos com frequência).
"Outros trabalhos mostram que algo acontecia antes do Big Bang", disse Poplawski à Folha.
Ele, de fato, não está sozinho. "Poplawski não é o único a especular sobre o que poderia ter havido antes do Big Bang", afirma Roberto Belisário, físico formado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
"Entre os cosmólogos, o Big Bang já não é mais considerado o início da criação de tudo. Deve ter havido um "antes", assim como está havendo um depois", completa.
A repercussão sobre a nova proposta do físico polonês ainda está engatinhando.
"A teoria ainda é muito qualitativa. Só o tempo dirá qual ideia vencerá essa corrida", conclui Belisário.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Nenhuma escola é uma ilha

Nenhuma escola é uma ilha

publicado em 08/04/2011

Por Ana Flávia C. Ramos
Fonte
TAB NA REDE
Tragédias como a ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, sempre provocam grande comoção pública, indignação e, obviamente, tristeza pelas muitas crianças perdidas no atentado. Além desses sentimentos, tais fatos provocam também um grande tsunami de “especialistas”, mobilizados em velocidade estonteante pela mídia, para dar laudos e explicações quase matemáticas sobre as motivações do assassino. O atirador Wellington Menezes de Oliveira, segundo as informações desses “cientistas da tragédia” (que variam de “criminólogos” a policiais militares), era tímido, solitário, filho adotivo, “usuário” constante do computador (a “droga” dos tempos modernos segundo os “analistas”), ateu, islâmico, fanático, fundamentalista, portador do vírus da AIDS e, provavelmente, vítima de bullying na escola.
Certamente não há como contestar que todo ato humano, e por isso histórico, se explica a partir da análise de uma cadeia de relações complexas. Como digo aos alunos, nada tem resposta simples e direta. Entretanto, o tipo de questão levantada para entender o terrível ato de Wellington Menezes de Oliveira diz muito mais sobre nós mesmos do que sobre ele. Todos os nossos preconceitos estão embutidos nessas respostas. De fato, não sabemos, e talvez nunca saibamos, por que exatamente ele atirou contra cada uma das crianças (em sua maioria meninas), assim como não sabemos sobre as reais motivações dos muitos atentados como esse, ocorridos em países como Estados Unidos e Dinamarca. Mesmo depois de tudo o que se discutiu, ainda é difícil, por exemplo, explicar Columbine (abril de 1999).
Uma das coisas que mais tem me chamado a atenção é a recorrência da explicação que elege o bullying escolar como um dos fatores que podem desencadear esse tipo de ato violento. A explicação não é nova, Columbine é prova disso. Há mais de dez anos atrás, dois meninos entram em uma escola, de capa preta (quase como em um filme hollywoodiano) e atiram em seus colegas. “Especialistas”, gringos agora, se apressam em dizer as razões: divórcio nas famílias, videogames, filmes violentos, Marilyn Manson, porte de armas facilitado e, como não poderia faltar, bullying na escola.
É inegável que o bullying é uma realidade. É indiscutível que ele é extremamente nocivo e doloroso aos alunos que sofrem com ele. É evidente que há urgência em iniciar um debate para saber como sanar o problema. Mas a pergunta que fica é: o que de fato é o bullying? Ele é um sinal (histórico) de que? E ainda mais: ele é um problema restrito à escola? Por que os alunos são tão cruéis com seus colegas?
Michael Moore, cineasta norte-americano explosivo, tentou dar a sua interpretação para o atentado de Columbine com o documentário Bowling for Columbine (2002).  Moore, ao invés de repetir os clichês da mídia, foi implacável na destruição do senso comum das justificativas moralistas para o evento. Item por item, desde a desagregação da família, Manson, até a polêmica questão do porte de armas foram desconstruídos em sua narrativa. O foco centrou-se em respostas muito mais interessantes, localizadas não nos dois jovens assassinos, mas na sociedade americana. O imperialismo militarista dos Estados Unidos, a ação violenta em outros países, a política do medo (incentivada pelo Estado e pela grande mídia), que reforça e superestima dados sobre a violência urbana, sobre o fim de mundo, e, principalmente, a intolerância com todo tipo de diferença. Racismo, preconceito, homofobia, conflitos religiosos e luta de classes são só alguns dos ingredientes do caldeirão de ódios em que se transformou a sociedade americana.
Como crescer no Colorado, na “livre” América, e não ser conspurcado por esses valores? Como não idolatrar armas e achar que elas são um meio prático de solucionar problemas? Como viver imune a uma sociedade individualista, capitalista, que divide os seus cidadãos o tempo todo em “winners” e “loosers”? E mais ainda, como não se deixar levar por uma sociedade que até hoje não consegue lidar com a diferença entre brancos e negros? Uma sociedade que até os anos 1960 não oferecia direitos, oportunidades e tratamentos iguais a todos os seus cidadãos, tem o que para oferecer ao pensamento dos estudantes? Os americanos, ainda hoje, estão preparados para o respeito à diferença? A relação que eles mantêm com os muçulmanos diz muito. Definitivamente a liberdade e o respeito ainda não se transformaram em uma unanimidade por lá.
É claro que mesmo Moore não chega a dar respostas definitivas sobre a questão. E mais ainda: é evidente que ele considera a forma pela qual a instituição ESCOLA trata seus alunos (hierarquias e classificações hostis), ignorando muitas vezes o bullying, tem sua responsabilidade no massacre. Assim como é nítido que a venda facilitada de armas e munição são coadjuvantes importantes da história. Mas Moore foi corajoso ao lançar em cada um dos americanos a responsabilidade da tragédia e discutir aquilo que ninguém teve coragem (ou má fé) de fazer. Nem a mídia, nem o governo, nem a sociedade. É preciso encarar os “monstros”, com franqueza, e não apenas “satanizar” o ambiente escolar, para dar algum significado para esses eventos.
Ontem no Terra Magazine o antropólogo Roberto Albergaria afirmou que a mídia e a sociedade brasileira desejavam o impossível: explicações para um “desvario sem significado”. Segundo ele, o que Wellington Menezes praticou foi o que os estudos franceses chamam de “violência pós-moderna”, caracterizada por uma ruptura irracional, sem explicação. De fato, talvez tenha sido um “ato irracional”, fruto de um momento de insanidade. Mas acredito que esse tipo de resposta não nos ajuda a resolver coisas importantes sobre nós mesmos. A tragédia no Realengo, a meu ver, pode e deve ser início de um debate importante sobre a nossa sociedade.
A tragédia na escola do Rio de Janeiro acontece num contexto bastante relevante. Em outubro de 2009, Geyse Arruda foi hostilizada por seus colegas de faculdade porque, segundo eles, ela não sabia se vestir de modo “apropriado” para freqüentar as aulas. Em junho de 2010, Bruno, goleiro do Flamengo, é suspeito de matar a ex-namorada, Elisa Samudio, por não querer pagar pensão ao filho. Suposta garota de programa, Samudio foi hostilizada na opinião de muitos brasileiros. Após rompimento, Mizael Bispo, inconformado, mata sua ex-namorada Mércia Nakashima em maio de 2010. Em novembro de 2010, grupos de jovens agridem homossexuais na Avenida Paulista, enquanto Mayara Petruso incita o assassinato de nordestinos pelo Twitter. E mais recentemente, em cadeia nacional, Jair Bolsonaro faz discurso de ódio contra homossexuais e negros. Tudo isso instigado e complementado pelo discurso intolerante, preconceituoso, conservador e mentiroso do candidato José Serra à presidência da República. A mídia? Estava ao lado de Serra, corroborando em suas artimanhas, reforçando preconceitos contra Dilma, contra as mulheres e contra os tantos mais “adversários” do candidato tucano.
Wellington matou mais meninas na escola carioca. Se, por um lado, jamais saberemos as reais razões que o fizeram agir dessa forma, por outro sabemos o quanto a sociedade brasileira tem sido, no mínimo, indulgente com atos de intolerância, machismo, ódio e preconceito contra mulheres, negros e homossexuais. Se não há uma ligação direta entre esses diversos acontecimentos, eles pelo menos nos fazem pensar o quanto vale a vida de alguém em um contexto de tantos ódios? Quantas mulheres morrerão hoje vítimas do machismo? Quantos gays sofreram violência física? Quantos negros sentirão declaradamente o ódio racial que impregna o nosso país? O que é o bullying se não o prolongamento para a escola desse tipo de mentalidade? Quantas pessoas apoiaram as declarações de ódio de Bolsonaro via Facebook? Aquilo que acontece no ambiente escolar nada mais é do que um microcosmo do que a sociedade elege como valores primordiais. E o Brasil, que por tanto tempo negou a “pecha” de racista e preconceituoso, vê sua máscara cair.
Não adianta culpar o bullying, achando que ele é um problema de jovens, um problema das escolas. Não adiante grades e detectores de metal nas entradas ou a proibição da venda de armas. Como professora, sei que o que os alunos reproduzem em sala nada mais é do que ouviram da boca de seus pais ou na mídia. Não adiante pedir paz e tolerância no colégio enquanto a mídia e a sociedade fazem outra coisa. Na escola, o problema do bullying é tratado como algo independente da realidade política, econômica e social do país. Mas dá pra separar tudo isso? Dá pra colocar a questão só em “valores” dos adolescentes, da influência do malvado do computador ou dos videogames? Ou é suficiente chamar o ato de Wellington de uma “violência pós-moderna” sem explicação? Das muitas agressões cotidianas, a da escola do Realengo é apenas uma demonstração da potencialidade de nossos ódios. A única coisa que me pergunto é: teremos a coragem de fazer esse tipo de discussão?
Ana Flávia C. Ramos, historiadora, pesquisadora colaboradora do departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp.

domingo, 27 de março de 2011

Desapropriar, desmaterializar, desmonetizar: três tendências modificando o comportamento jovem

Xchange-fashion-swap
Intercâmbio de roupas no Japão, expressão da desapropriação. Imagem: ©Japan for sustainability 

Esta questão vem ganhando força há alguns anos no mundo verde e já foi mencionada em diversos artigos de Descubra o Verde Por que as experiências, e não os bens materiais, podem comprar a felicidade: os seres humanos finalmente começaram a entender que a posse de objetos não leva a uma melhor qualidade de vida. Muito pelo contrário: quanto mais se deseja as coisas, mais é preciso trabalhar para consegui-las e mantê-las, o que acarreta perda de qualidade de vida e de um tempo valioso para atividades criativas ou familiares.
Diante desta questão, a Resurgence (vía TreeHugger) relata três tendências que estão se desenvolvendo com mais força no Japão, apesar de também se aplicarem aos segmentos jovens de todo o mundo. 
São elas a desapropriação, a desmaterialização e a desmonetização. Os argumentos apontam para uma mudança de mentalidade, apesar da associação óbvia com a crise econômica (que faz com que as pessoas gastem menos dinheiro).
 LEIA MAIS
A primeira, desapropiação, está ligada à redução da quantidade de coisas que desejamos. Os bens materiais de todo tipo costumam ser símbolos de status, mas as novas gerações já começam a pensar de outra forma, considerando-os como obstáculos e preocupações adicionais. Os serviços de aluguel, o empréstimo de carros e as caronas compartilhadas sustentam esta idéia, tornando menos atraente a posse de “coisas novas”.
Em segundo lugar está a chamada desmaterialização, que busca desassociar a felicidade da posse de bens materiais. O conceito aparece em diversos estudos que afirmam que a felicidade está mais ligada à riqueza das relações humanas, à superação pessoal e à conexão com a natureza do que ao consumo, algo que um número crescente de pessoas começa a comprovar em seu dia a dia.
Este conceito surge com clareza no crescimento e aceitação de comunidades ricas em relacionamentos humanos (que mencionamos em projetos como Rethinking e das “comunidades em transição”, assim como na retomada de eventos e atividades que estimulem o relacionamento com os vizinhos. 
Finalmente, a tendência da desmonetização vai na contramão do costume de planejar a vida em torno da quantidade de dinheiro que se ganha. Agora, os jovens passar a dedicar mais tempo a atividades que gerem satisfação pessoal em vez de apenas dinheiro.
Estas tendências não são novas e se expressam em projetos e no comportamento das pessoas ao redor do mundo. No entanto, é interessante nomear estes movimentos de mudança cultural para visualizá-los com maior clareza.
Como menciona o jornalista Junko Edahiro em seu artigo, o crescimento destas tendências ataca diretamente as empresas que continuam focadas em vender mais e mais produtos como principal modelo econômico.

sábado, 12 de março de 2011

Pesquisa Avançada do GMAIL: Use o Gmail e seja feliz!!

Tou aqui pensando que daria pra escrever um livro de autoajuda só com esta informação.
É comum passar desapercebido por nós as possibilidades de muitos programas que usamos cotidianamente, mas que as vezes não nos detemos para entender o que ele nos oferece além, por exemplo, de enviar ou receber emails..
Tenho tentado aprender já há algum tempo os comandos que o GMAIL usa para encontrar e organizar os emails tanto em minha "caixa de entrada", quanto nas suas pastas ou indicadores.
Colei abaixo dois artigos, um do site do Google, sobre como funcionam estes comandos, um bom exemplo é o comando:
is:unread
que quando digitado na caixa de busca do Gmail, ele apresenta a pesquisa com todos os emails não lidos, sejam eles arquivados (retirados da caixa de entrada), ou arquivados com indicadores.
Enfim.. são muitos.. :)


Como usar a pesquisa avançada


Os operadores de pesquisa avançada são palavras de consulta ou símbolos que executam ações especiais na pesquisa do Gmail. Esses operadores permitem que você encontre o que procura de forma rápida e precisa. Também podem ser usados para configurar filtros para que você possa organizar sua Caixa de entrada automaticamente. Veja, a seguir, alguns dos operadores mais úteis.Você também pode utilizar os operadores de pesquisa avançada clicando em Mostrar opções de pesquisa, abaixo da caixa de pesquisa do Gmail.

Operador
Configuração
Exemplo(s)
from:
Utilizado para especificar o remetente
Exemplo - from:ana
Significado - Mensagens de Ana
to:
Utilizado para especificar um destinatário
Exemplo: to:daniel
Significado: todas as mensagens que foram enviadas ao Daniel (por você ou outra pessoa)
subject:
Pesquisar palavras na linha do assunto
Exemplo - subject:jantar
Significado - Mensagens que têm a palavra "jantar" no assunto
OR
Pesquisar mensagens que correspondam ao termo A ou ao termo B*
*OR deve estar em caixa alta
Exemplo: from:ana OR from:daniel
Significado - Mensagens de Ana ou de Daniel
-
(hífen)
Utilizado para excluir mensagens de sua pesquisa
Exemplo - jantar -filme
Significado - Mensagens que contém a palavra "jantar" mas não contém...... a palavra "filme"
label:
Pesquisar por mensagens por marcador*
*Não existem operadores de pesquisa para mensagens não marcadas
Exemplo: from:ana label:amigos
Significado - Mensagens de Ana que têm o marcador"amigos"Exemplo - from:daniel label:minha família
Significado - Mensagens de Daniel que têm o marcador "Minha Família"
has:attachment
Pesquisar mensagens com anexo
Exemplo - from:daniel has:attachment 
Significado - Mensagens de Daniel que contêm umanexo
lista:
Pesquisa por mensagens nas listas de e-mails
Exemplo -list:info@exemplo.com 
Significado - Mensagens com as palavras info@example.com no cabeçalho, enviadas para ou dessa lista
filename:
Pesquisar um anexo por nome ou tipo
Exemplo -filename:deverdefísica.txt
Significado - Mensagens com um anexo chamado "deverdefisica.txt"
Exemplo - label:trabalho filename:pdf
Significado - Mensagens marcadas como "trabalho" que também têm um arquivo de PDF em anexo
" "
(aspas)
Utilizadas para pesquisar uma frase exata*
*Não há distinção entre letras maiúsculas e minúsculas
Exemplo - "estou com sorte"
Significado - Mensagens contendo a frase "estou com sorte" ou "Estou com sorte"
Exemplo - subject:"jantar e um filme"
Significado - Mensagens contendo a frase "jantar e um filme" no assunto
( )
Utilizado para agrupar palavras
Utilizado para especificar termos que não devem ser excluídos
Exemplo - from:ana (jantar OR filme)
Significado - Mensagens de Ana que contêm a palavra "jantar" ou a palavra "filme"
Exemplo - subject:(jantar filme)
Significado: Mensagens nas quais o assunto contém ambas as palavras "jantar" e a palavra "filme"
in:anywhere
Pesquisa mensagens em qualquer lugar no Gmail*
*Por padrão, as mensagens das seções Spam e Lixeira são excluídas das pesquisas
Exemplo - in:anywhere :filme 
Significado - Mensagens emTodos os e-mails Spam eLixeira que contêm a palavra "filme"
in:inbox
in:trash
in:spam
Pesquisar mensagens nas seções Caixa de EntradaLixeira ou Spam
Exemplo - in:trash from:ana
Significado - Mensagens de Ana que estão na Lixeira
is:starred
is:unread
is:read
Pesquisar mensagens marcadas com uma estrela, não lidas ou lidas
Exemplo - is:read is:starred from:Daniel
Significado - Mensagens de Daniel que foram lidas e estão marcadas com uma estrela
cc:
bcc:
Utilizado para especificar destinatários nos campos*Cc: ou Cco:
Pesquisa em Cco: não é possível detectar mensagens enviadas a você pelo campo Cco (mensagens recebidas sem o conhecimento dos outros destinatários)
Exemplo - cc:daniel 
Significado - Mensagens que foram copiadas para Daniel
after:
before:
Pesquisar mensagens enviadas durante um período*
*As datas devem estar no formato aaaa/mm/dd.
Exemplo - after:2004/04/16 before:2004/04/18 
Significado - Mensagens enviadas entre 16 de abril de 2004 e 18 de abril de 2004.*
*Mais precisamente: Mensagens enviadas após às 12:00 (ou 00:00) do dia 16 de abril de 204 e antes de 18 de abril de 2004.
is:chat
Pesquisar mensagens de bate-papo
Exemplo - is:chat macaco
Significado - Qualquer mensagem de bate-papo com a palavra "macaco".

Muitos usuários fazem download dos emails pelo Outlook ou Thunderbird e depois usam outros programas para buscar as mensagens no desktop.
Muito sensato, claro.
Mas, se você utiliza o GMail, saiba que na própria interface web existem ferramentas de busca bem poderosas.
Vamos dar uma olhada em alguns exemplos de pesquisas de email e suas possíveis soluções com comandos simples:
• Tenho centenas de emails  não lidos em minha caixa de entrada do Gmail, mas nem todas aparecem na página principal. Como consigo visualizar apenas as mensagens não lidas do GMail?
label:inbox is:unread
• Meu primo me enviou um arquivo em PDF no mês passado, e eu não consigo localizá-lo na caixa de entrada. Como encontrar este PDF?
from:Nome_do_primo nome_do_arquivo:pdf after:2009/06/01
(sempre no formato yyyy/mm/dd)
• Recebi um email do suporte do Skype semana passada. Não tenho certeza se apaguei a mensagem, se arquivei ou se marquei como spam.
from:Skype in:anywhere
• Não tenho tempo de checar todas as mensagens agora. Me mostre apenas os emails enviados diretamente a mim:
is:unread after:2009/07/20 to:seu_email@gmail.com
• Mariana me manda muitos emails com anexos interessantes. Adoro as mensagens mas tomam muito espaço.
from:Mariana has:attachment [Selecione todas e delete, se for o caso]
• Deletei um email importante de um colega. A lixeira do GMail já está cheia. Como recuperar aquela mensagem em especial?
label:trash Nome_do_Seu_Colega
• Uso o GMail para fazer backup de arquivos Zipados de minha empresa Parmalat. Quero deletar os backups mais antigos que 2 semanas.
filename:.zip before:2009/07/06 parmalat
• Conversando no Google Talk, Paula me enviou um link de suas fotos no Flickr.
in:chat from:paula flickr.com
• Mostre-me todos os emails de meu Chefe que ele marcou como Urgente ou Importante.
from:Nome_do_Chefe subject:(Urgent Important) ou from:Nome_do_Chefe subject:(Important)
• Tenho dois contatos no GMail com nomes parecidos – Pedro Silva e Pedro Silva Junior. Posso ver os emails recebidos apenas do Junior?
from:Pedro Silva -Junior
Atalhos de busca: Em vez de digitar label:unread, você pode simplesmente digitar l:^u

terça-feira, 8 de março de 2011

Antes, ser pai era ensinar. Hoje, ser pai é aprender.

NIZAN GUANAES 

Júnior 



Se quiser pensar diferente, ver como o mundo está mudando, ouça seus filhos, seus netos, a turma deles

NASCI EM 9 de maio de 1958, numa casa bem modesta no Carmo.
Tem gente que tem vergonha de sua origem. Eu tenho muito orgulho. O chão da nossa casa era de cimento, não havia água encanada. Tomávamos banho a partir de uma lata de água esquentada no fogo, usando a embalagem de queijo prato como cuia.
Inesquecível.
Televisão e refrigerante, só aos sábados. Meu avô era comunista ferrenho, me botava para ler Castro Alves, Monteiro Lobato.
São essas coisas que dão forma à vida. Você é o que você é. A sua história é a sua maior diferença. O que só você pode contribuir será sempre a sua maior contribuição ao longo da sua vida toda.
Hoje, tenho 52 anos, e tudo isso ecoa numa carcaça cada vez mais velha. Ter 52 anos é chato, mas a outra opção é dramática...
Passei 157 dias no exterior no ano passado. Vendo, ouvindo, me reciclando e aprendendo.
Sou de 1958, e não há quem seja de 58 que não precise de uma boa reforma.
Sou um homem de meia-idade.
Tenho gastrite, quase uma hérnia de disco, refluxo, minha memória, principalmente a recente, se foi, minha vista é péssima.
Por causa do refluxo, meu médico disse que devo evitar gelo, água com gás, refrigerante, bebida, cigarro, pimenta, comidas condimentadas.
Ou seja, ele está pedindo a um baiano que seja um suíço.
Tudo na vida tem seu lado bom.
Eu, que sempre fui arrogante, intolerante, de péssimo humor, eu, que de tão mala, quando viajo sem mala, pago excesso, estou aprendendo com os anos a não me levar tão a sério.
Tenho três filhos. Uma menina de 25 anos e dois aborrecentes.
Os dois aborrecentes me botaram o apelido de Júnior. Porque, segundo eles, sou mais infantil e mais mimado do que eles dois.
Nem meu pior inimigo poderia ter me dado um apelido mais cáustico e mais cirúrgico.
É uma desmoralização e ao mesmo tempo uma graça ser chamado de Júnior.
Delícia maior é viajar com eles e ser esculhambado e desmoralizado na frente dos outros por criaturas que eu amo tanto.
Antes, ser pai era ensinar. Hoje, ser pai é aprender.
A última campanha do Itaú foi criada com eles. Eles me ensinam muito. Animam-me quando estou triste, baixam a minha bola quando estou me achando demais.
Adoro viajar sozinho com eles para descobrir o mundo em dimensões diferentes da minha. Passam semanas e dias inteiros comigo na China, em Roma, em Dubai, na Cidade do Cabo, na Sardenha.
Odeio e amo. Além de me chamarem de Júnior na frente das outras pessoas, no particular eles ainda me chamam de Juju.
Juju é a suprema desmoralização.
A verdade é que, como pai tardio, sou quase como um avô para meus filhos. E eles me renovam mais do que qualquer vitamina. Tantas vezes eles já me fizerem mudar de roupa, de cabelo, de pensamento.
A moral da história deste artigo é que, se você quer pensar diferente, se quer ver como o mundo está mudando, posicionar sua empresa na forma moderna, para que o futuro não seja uma ameaça, mas uma promessa, não contrate só consultores.
Ouça seus filhos, seus netos, a turma deles.
Eles esculhambam a gente, o nosso trabalho, os nossos clientes. Mas eles são ar puro entrando pela janela, guias para o presente e um atalho para o futuro.
A gente fica possesso na hora da esculhambação, dorme pensando e acorda iluminado.
E eu, Júnior, agradeço aos meus filhos por me desmoralizarem a cada segundo e me iluminarem a cada dia.


NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças, a cada 15 dias, nesta coluna. 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Metáforas de crimes influenciam formas de punição 

Estudo mostra que associações metafóricas como "besta" e "vírus" mudam a percepção das pessoas sobre uma mesma violência
HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA 

Qual a solução para o crime? Pôr mais policiais nas ruas e trancafiar os bandidos ou investir em programas de renda e educação?
Não será surpresa constatar que as respostas das pessoas variam conforme padrões bem conhecidos.
Homens, por exemplo, tendem a ser mais policialescos do que mulheres; pessoas mais à esquerda costumam preferir medidas consideradas preventivas.
Pesquisadores da Universidade Stanford encontraram uma variável mais poderosa que o sexo ou as preferências políticas: as metáforas. A forma como descrevemos a criminalidade faz mais diferença nas respostas do que os demais fatores.
Paul Thibodeau e Lera Boroditsky mostraram num artigo de psicologia publicado esta semana na "PLoS One" que, se o crime é comparado a uma besta selvagem, aumentam as soluções repressivas; se estiver relacionado a um vírus, por exemplo, crescem as preventivas.
A primeira descrição estimula a ideia de caçar e enjaular e, por consequência, adotar leis mais duras. Já a segunda favorece a noção de que as causas reais devem ser buscadas, e a comunidade, inoculada contra o mal.
Por muito tempo, metáforas foram vistas como um floreio linguístico, no máximo um modo engenhoso para explicar conceitos abstratos.
Nos últimos anos, contudo, trabalhos em psicologia e neurociência vinham indicando que nós pensamos através de metáforas.
Autores importantes como George Lakoff chegaram a sustentar que metáforas têm existência física no cérebro.
O que a pesquisa de Thibodeau e Boroditsky mostra de forma empírica é que elas também são capazes de influenciar fortemente a forma como tentamos solucionar problemas complexos.
No experimento principal da dupla, 485 estudantes foram divididos em dois grupos. Cada um deles leu uma de duas versões de um texto sobre o aumento da criminalidade em Addison, uma cidade fictícia. As diferenças eram mínimas.
A primeira variante comparava o crime a uma "besta selvagem". A segunda usava a imagem de um "vírus". Em seguida, vinham dados estatísticos inventados.
Após ler o texto, os pesquisadores perguntaram aos estudantes como o problema poderia ser resolvido. Para 65%, a resposta era na linha do mais policiamento.
Entre os que leram a metáfora da besta, porém, 74% abraçaram a linha repressiva; contra 56% dos que receberam a versão vírus.
Experimentos com outras populações exploraram mais esses achados. Mostraram, por exemplo, que as pessoas não se dão conta do enquadramento metafórico que fazem dos crimes.
A maioria diz que chegou à conclusão que chegou a partir dos dados estatísticos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

NEURO

SUZANA HERCULANO-HOUZEL - suzanahh@gmail.com

Que hora é hora de dormir?

Engana-se quem acha que pode mudar o horário de sono o tempo todo impunemente
VOCÊ JÁ DEVE TER NOTADO que costuma sentir sono mais ou menos no mesmo horário todas as noites. Uma questão de hábito, talvez?
Em parte, sim: adormecer tem um componente de condicionamento, uma associação entre estímulos específicos e sempre um mesmo resultado, o sono. Por isso as recomendações de pediatras e neurologistas quanto a bons hábitos de sono fazem sentido: ter uma rotina (aquele banho mais longo à noite, seguido pela roupa especial de dormir e pelo apagar das luzes), dormir bem alimentado (para não acordar com fome no meio da noite), só deitar na cama na hora de dormir, não ficar brincando de joguinhos eletrônicos excitantes na cama.
Sexo, claro, "pode": embora seja estimulante, a tendência para homens e mulheres é relaxar física e mentalmente a seguir, e adormecer logo.
Engana-se, contudo, quem acredita que pode mudar impunemente o horário de sono o tempo todo. Trocar o dia pela noite constantemente é péssimo para o cérebro.
Não só se perdem várias horas de sono no processo, que cobram a conta depois (com aquela sensação de cansaço e falta de atenção), como os ritmos internos do corpo, temperatura, metabolismo e produção de hormônios ficam desencontrados com o sono.
Para crianças, sobretudo, vale o que as avós diziam: é durante o sono que se cresce.
O pico de produção de hormônio do crescimento acontece no início da noite; se não se está dormindo nessa hora, perde-se a dose do dia.
Além disso, há um horário interno mais propício ao sono de cada um. Assim como variações genéticas determinam se você é louro ou moreno, claro ou escuro, outras variações conhecidas podem fazer com que você naturalmente tenda a adormecer cedo e acordar de madrugada (esses são os matutinos), ou, ao contrário, a adormecer especialmente tarde e só acordar lá pelas dez da manhã (os vespertinos).
Para essas pessoas, acordar fora do horário "normal"" (no sentido estatístico) é quase doloroso. A diferença está nos genes que regulam a hora do dia em que nosso relógio autônomo interno troca o modo "dormir" pelo modo "acordar". Funciona até na mosquinha da banana: basta uma variação genética para transformá-las em madrugadeiras ou notívagas.
Se você é um desses casos fora da norma, portanto, respeite-se. Mais difícil, contudo, é conseguir o respeito dos outros...

SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora de "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com 

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

À meia-noite levarei seu sono

À meia-noite levarei seu sono

NA VOLTA ÀS AULAS, TEENS RELUTAM EM LARGAR A INTERNET E IR PARA A CAMA 

IURI DE CASTRO TÔRRES
DE SÃO PAULO 

Com poucas variações, a história é a mesma. "Pareço um zumbi", "É difícil voltar à rotina", "Dormia às 5h e acordava às 13h" etc.
É, voltar ao ritmo escolar, com intermináveis aulas que começam antes das 8h, enquanto o dia brilha lá fora e sua cama chama, não é mole.
Mas quem são os inimigos da rotina saudável de sono dos teens? A resposta é fácil: a internet, o celular e, é claro, a internet no celular.
"Essa geração está cada vez mais conectada", diz Silvana Leporace, coordenadora de orientação educacional do colégio Dante Alighieri. "Dormem com o celular ao lado e ficam trocando mensagens com os amigos."
Para Cristiano Nabuco, coordenador do programa de dependentes de internet do Instituto de Psiquiatria da USP, "os adolescentes espirram do controle dos pais." "Eles não dormem, a internet é um apelo muito forte."
Segundo Silvana, isso atrapalha o aprendizado, pois a fixação do conteúdo ocorre durante o sono.
Matheus Monteiro, 17, de Santos (SP), por exemplo, é um madrugador confesso. "Nas férias, ia até as 6h fácil, fácil", conta. Como é professor de informática, o garoto passa horas fuçando novas ferramentas on-line.
Como agora tem de pular da cama às 6h30 da madrugada, demora a acordar "de verdade". É a mesma situação de Guilherme Bighetti, 16, de São Paulo, que "zumbiza" durante as primeiras aulas do dia. "Tenho que jogar água gelada na cara."
A técnica para disfarçar as olheiras é a maquiagem, e a estratégia para espantar os bocejos é música alta no caminho para a escola. Ainda assim, eles dificilmente escapam de um cochilo em aula.
Também é comum tentar compensar, aos sábados e domingos, as horas de sono perdidas. É quando os teens "hibernam". Stefanie Egedy, 15, dorme até depois do almoço. "Vale a pena", atesta.
"Sento em frente ao computador e esqueço da vida, nem vejo o tempo passar", diz Brenda Amanda, 16.
A impressão do tempo "voar" faz sentido do ponto de vista científico. Segundo Nabuco, o córtex pré-frontal, parte do cérebro que controla os impulsos e é sede da razão e do conhecimento, ainda não é totalmente desenvolvido nos adolescentes.
Por isso, de acordo com o médico, é mais difícil saber a hora de desconectar e ir contar carneirinhos para dormir no mundo real.

"Internet não é inimiga, mas precisa de controle", diz médico

DE SÃO PAULO 

Para Cristiano Nabuco, coordenador do programa de dependentes de internet do Instituto de Psiquiatria da USP, a internet não é uma inimiga, mas é necessário controlar seu uso.
Três sinais de que a rede está atrapalhando a sua vida são: você esconde o número de horas que fica conectado, fica apreensivo de ir a lugares sem internet e deixa de fazer atividades cotidianas, como esportes ou sair com os amigos, para ficar on-line.
"Não dá para ficar acordado a noite toda e não conseguir levantar de manhã", diz.
Segundo Gustavo Moreira, pediatra e pesquisador do Instituto do Sono, o ser humano foi feito para dormir no escuro, e a luz do computador e da TV confundem tudo.
"A luminosidade age no centro de sono do cérebro, responsável por organizar o ciclo de descanso. Ele passa a entender que não escureceu e fica desperto", diz.
O resultado é mau humor, irritação e pouca concentração nos estudos. (ICT)

EFEITOS DA FALTA DE SONO 

Saiba por que não é legal ficar zumbi de manhã

  Dificuldade para fixar novos conteúdos na escola

  A longo prazo, causa obesidade, pois você passa a comer mais

  Mau humor constante

  Dificuldade para operar equipamentos de forma adequada, como carros ou motos

ENTRE NO RITMO 

  Respeite seu horário de sono: durma cedo para acordar cedo

  Faça atividades físicas regularmente, mas evite-as depois que escurecer

  Evite sonecas durante o dia